A areia foi palco para os amantes do surfe
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Várias gerações dividiram as atenções durante a etapa
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Arquibancadas foram improvisadas para assistir ao evento
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Mineirinho venceu a etapa carioca
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A vitória de Mineirinho foi um brinde à velha guarda do surfe
Kelly Slater decepcionou na etapa carioca
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Já Kelly Slater decepcionou a sua legião de fãs
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Um brinde à cultura de praia!

Domingo, 22 Maio 2011 11:40
Igor Pereira | Especial para o Caravana

Etapa do Mundial de Surfe, no Rio de Janeiro, expôs as várias "tribos" que compõem a cultura da areia que acompanha a modalidade


Para o esporte o final foi perfeito. Ter um brasileiro campeão, de modo surpreendente, e ainda conquistando uma inédita liderança na briga pelo título mundial. Não dá pra medir o quanto assistir à final serviu de incentivo para os garotos que estão começando no surfe. Basta dizer que o próprio Mineirinho aponta como momento crucial na carreira ter assistido aos dez anos, a vitória de Peterson Rosa, em 1998, também na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Mas e quanto a recuperar a cultura da praia, o tal objetivo principal do “Verão sem Fim”? Aí, a discussão é mais longa. Bem, pelo menos longa o bastante para esse texto e para um chopinho depois do Posto 9.

Dá pra botar o clima como um dos obstáculos principais. Antes de ser um conceito, o verão é uma estação do ano. Tudo bem que ele costuma bater ponto por aqui em outras épocas, mas daí a exigir que ele cumpra expediente integral em pleno outono era um pouco de exagero. Em pelo menos metade dos dias da competição houve chuva, vento frio, céu nebuloso e casacos dividindo o lugar na areia com os chinelos.

Cabe aqui, o argumento de que os frequentadores mais cascudos vão até à praia, independente do clima, nem que seja pra tomar uma água de coco no calçadão. E também que os dias em que o sol colaborou foram lindos, e bastante agradáveis, sem o forte calor do verão oficial.

Outra consideração, essa meio óbvia, meio “cricri”. Como quase tudo que tem cultura no meio, não existe uma “cultura de praia”, mas sim várias “culturas de praia”. Cada cidade tem a sua e no caso do Rio, cada praia tem a sua. E entre os dois palcos do evento, Arpoador e Barra da Tijuca, as diferenças são nítidas.

Tribos diversas

Pessoalmente prefiro o Arpoador. Não apenas porque dá pra chegar até lá de metrô. Mas pela variedade do público. Curiosos, aficionados e desavisados se misturavam na calçada e na areia. Nenhuma resposta era óbvia. Uma senhora pacata, com o cachorrinho no colo, olhar perdido pro mar. “É a primeira vez que a senhora assiste um campeonato?” “A quarta, meu filho, comecei a gostar de surfe desde que... Vai Jadson, não deixa passar essa, garoto.”

Mais adiante, presilhas de bichinho no cabelo, um aparelho dentário que não tirava a beleza do sorriso. Carinha de menina que fugiu da aula. “Veio assistir o campeonato?” “Não, vim atrás do meu entrevistado, que veio atrás do Kelly Slater. É pra minha tese na UFRJ, sobre os paparazzi.”

Lógico que contribui para o clima do lugar o “aqui nasceu surfe misturado com a contracultura, olha ali atrás daquela pedra onde a Gal Costa fazia a cabeça.” No Arpoador aconteceu em 1976, o Waimea 5000, primeira etapa do circuito mundial disputada no Brasil, que depois virou música do Jorge Ben.

Eram tempos mais românticos, sem área VIP ou pulseirinhas coloridas. O evento era todo organizado por Nelson Machado, dono da loja de surfe Waimea, que fez um esforço monumental para descolar os 5000 dólares de premiação.

Até o formato da competição era diferente. Qualquer surfista profissional podia se inscrever em uma espécie de eliminatória, para disputar com os “top 16”, que só entravam na fase final da disputa. Não havia repescagem e um “local” desconhecido podia chegar e vencer os principais surfistas do mundo.

Relembram a época, duas exposições na Barra da Tijuca: a primeira com uma linha do tempo feita por pranchas contando a história do surfe no Brasil e uma mostra de fotos homenageando Pepe Lopes, o campeão daquele primeiro Waimea.

Pepe era uma espécie de Chuck Norris dos esportes radicais, foi campeão de surfe, vôo livre e hipismo. Ainda arrumou tempo pra inventar o sanduíche natural. Saiu do mundo em 91 num trágico acidente, na final do campeonato mundial de asa delta, no céu do Japão.

Outra exposição que o Verão sem Fim promoveu na Barra da Tijuca, paralela a competição, foi “Rio em Prancha”, em que artistas plásticos expõem suas criações nas pranchas, mostrando que continua forte a ligação entre arte e surfe.

Mas o que permaneceu mesmo intacta, nesses quarenta anos de surfe brasileiro, é a felicidade de quem vive do esporte e conseguiu fazer seu escritório na praia. Isso vale não só para os atletas, mas principalmente por todos os que fazem o evento acontecer. O locutor, que improvisa idiomas na tradução simultânea, os ex-surfistas profissionais, que integram a equipe de salvamento, a fotógrafa argentina que se divide em “freelas” pra rodar o mundo de competição em competição.

Coincidência ou não, o final de semana marcou a volta de outro ícone das praias dos anos 70 ao Arpoador: O Circo Voador. A lona foi montada para abrigar as atrações do Viradão Carioca. Sim, amigos paulistas, está engatinhando, mas nós também temos um. Hoje, por exemplo, tem show do Inimigos do Rei, dos clássicos “Uma Barata Chamada Kafka” e “Adelaide, minha anã paraguaia.” Pode crer, “bróder”.

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