André, um cigano por amor ao surfe
Foto: Arquivo pessoal
André em ação: o surfe sempre influenciou sua vida
André, um cigano por amor ao surfe
Foto: Arquivo pessoal
O surfista posa ao lado da famosa "Furgoneta"
André, um cigano por amor ao surfe
Foto: Arquivo pessoal
As Ilhas Canárias sempre embalaram seus sonhos
André, um cigano por amor ao surfe
Foto: Arquivo pessoal
Em Mejillones, André morou no "vale mágico"
André, um cigano por amor ao surfe
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A bandeira do Brasil sempre esteve ao seu lado
André, um cigano por amor ao surfe
Foto: Arquivo pessoal
O litoral norte paulista é o seu atual "point"
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André, um cigano por amor ao surfe

Sexta, 06 Maio 2011 11:02
Pedro Cattony | Do Caravana

Sem dinheiro e movido apenas pelo sonho de buscar a "onda perfeita", o paulistano André conheceu diversos paraísos naturais pelo mundo

Apesar dos 30 anos de idade e ter ainda muita vida pela frente, André Queiroz dos Santos já tem histórias de sobra para contar. O surfe e o mar, grandes influências em sua vida, o motivaram a percorrer caminhos incertos atrás de boas ondas pelo mundo.

Nascido em São Paulo, capital, e formado em hotelaria, André descobriu o surfe com 17 anos. "Passei minha infância frequentando o centro de Ilhabela e, logo que comecei a surfar, passei a ir para Castelhanos e as praias de São Sebastião, Maresias e Camburi", conta. "Foi amor a primeira vista. Larguei todos os esportes que fazia e só pensava em surfar."

A Ilhabela, no litoral norte do Estado de São Paulo, sempre foi sua segunda casa e, com o tempo, deixou de frequentá-la só por diversão e começou a esticar suas temporadas trabalhando em hotéis e restaurantes da região.

Cansado do difícil acesso às ondas próximas ao centro da ilha, André radicalizou e resolveu se mudar para praias mais selvagens e com ótimas ondas. Primeiro, se mudou para Castelhanos e, em seguida, para a praia do Bonete, lugares onde encontrou na simplicidade do modo de vida caiçara a motivação para encarar grandes desafios e cair no mundo para encontrar a onda perfeita.

"Fiz um projeto com o objetivo de dar a volta ao mundo trabalhando nos momentos certos e sempre em lugares conhecidos pelas boas ondas."

André trabalhou alguns meses em eventos na cidade de São Paulo para juntar o dinheiro da passagem e, também, para completar seu "check list" com alguns equipamentos.

Desde o início, as Ilhas Canárias - arquipélago espanhol localizado na costa africana - estavam em seus planos por serem conhecidas com o "Havaí europeu". Sem conhecer ninguém por lá e por recomendação de um amigo com contatos na Ilha de Mallorca, seguiu rumo a outro arquipélago espanhol: as ilhas Baleares, no mar Mediterrâneo.

"Mandei um e-mail para o contato de um amigo para ter informações do local. Acabamos ficando amigos e ele me ofereceu uma força no principio", relembra. "Viajei sem falar nada de inglês e um péssimo portunhol, pouquíssimo dinheiro e com direito aos meus três meses como turista."

Apesar de já estar esperando a liberação de seu passaporte português na data da viagem, em 2004, André se viu forçado a iniciar sua busca por emprego sem a documentação necessária para trabalhar legalmente. Tentou empregos em bares, mas a língua foi uma barreira no início.

"Na primeira semana consegui trabalho em um bar. Modéstia a parte, eu já tinha boa experiência, mas não entendia nada do que espanhóis bêbados me pediam com o som alto da balada. Foi um desastre e, no fim da noite, o gerente me disse: Vi que trabalha bem no bar, mas só volte no dia em que aprender a falar espanhol. Agora não dá!"

O jeito então foi começar com um trabalho mais introspectivo: limpeza de barcos em uma marina.

A vida na "furgoneta"

Com a proximidade do vencimento de seu visto como turista e sem muitas ondas, André decidiu deixar Mallorca e entrar nas Ilhas Canárias antes que fosse pego no aeroporto com a documentação vencida.

"Fiz bons amigos em Mallorca. Lindas praias, mas poucas ondas. Sempre estava atento as previsões e consegui surfar apenas três vezes. As sonhadas Ilhas Canárias me chamavam. Me falaram que havia um fotógrafo de surfe brasileiro chamado Cedric Barros por lá. Consegui o contato dele, liguei na cara de pau e perguntei se ele poderia me dar uma força na chegada. Ele foi super bacana e disse que podia me emprestar a “furgoneta”, um veículo em que ele viveu por anos com a família para eu dormir no começo."

A primeira visão das Ilhas, ainda no avião, o assustou. Vulcões e uma paisagem cinza quase sem vegetação se chocavam com as lembranças que André trazia de Ilhabela. Todavia, os ventos fortes que pareciam agitar o mar próximo à costa lhe diziam que essa era o momento certo para se chegar nas Canárias. Setembro é o começo da temporada de ondas e elas estariam perfeitas.

No norte da Ilha, André passou cerca de 20 dias dormindo na furgoneta . "Com nada de grana, eu comia da maneira mais barata possível. Usava garrafas para urinar e caixas de leite para o número dois", revela, sorrindo. "Depois, jogava o “presente” no lixo da rua. Para tomar banho, me jogava no mar em um lugar escondido, me ensaboava e ia para uma praia mais turística para usar a ducha, onde tirava o sal do corpo."

Foi um amigo argentino que conheceu em Mallorca que o resgatou desta rotina quando decidiram alugar uma casa juntos.

Já com a língua espanhola sob controle, conseguiu emprego como barman, mas a falta de documentação continuava sendo um grande empecilho.

André não desistiu até que conseguiu um emprego na pizzaria de um francês. Era sua chance de deixar de passar apuros com dinheiro e, finalmente, juntar algum para comprar novas pranchas.

Depois de alguns meses trabalhando e vivendo no balneário, ele resolveu ir ao extremo com seu desejo de estar próximo das ondas que mais gostava e se mudou para a praia, mas não para uma casa!

"Fui até a praia que mais gostava de surfar, a temida Mejillones, e comecei a andar pela costa perto dela. Foi aí que me deparei com um vale mágico. A estrada de terra que dava acesso as ondas do norte ficava atrás do vale, onde tinha um mirante incrível e uma piscina natural se formava com a maré seca", ressalta. "Em frente tinha uma onda cabulosa e, ao redor, mais quatro ondas diferentes. Me inundei com um sentimento de paz e tive certeza que era ali que queria morar."

A nova "moradia" do surfista contava com uma barraca de camping com um colchão de casal cercada por um muro erguido com pedras da praia. Havia lugar para cozinhar a lenha e um chuveiro improvisado com uma bolsa de água camuflada entre as pedras. "Trazia água doce da cidade e estocava. Fiz um armário escondido nas pedras para umas sete pranchas."

André conta ter vivido em constante alerta, uma vez que estava ilegal no país. "Era um balneário pequeno e sempre encontrava os mesmos policiais todos os dias. Sempre que vinha um policial na minha direção , eu desviava e disfarçava", relembra. "Na pizzaria, sempre tinha uma roupa reserva embaixo do balcão. As vezes, entrava alguém que eu desconfiava e, de repente, eu já estava disfarçado com roupa de turista."

André teve o pedido de visto de trabalho negado e chegou a receber um documento exigindo sua saída do país em 15 dias. Mas com ajuda de uma advogada da cruz vermelha, já com experiência em casos de imigrantes ilegais, conseguiu um visto de trabalho. Isto permitiu que ele voltasse ao Brasil sem problemas com sua documentação nos aeroportos.

Irlanda, Espanha, Portugal...

De volta às Ilhas Canárias, André passou cerca de um ano trabalhando em um hotel. Nesse período, seus documentos portugueses ficaram prontos. Era hora de seguir viagem! "Conheci um sul-africano e sua namorada eslovena que moravam na Irlanda. Ficamos amigos e ele disse que seu irmão tinha uma casa com quarto para alugar num balneário turístico de frente para as ondas da costa oeste da país. Eu disse: to dentro!"

O surfista, ainda com as lembranças e experiências da antiga furgoneta na memória, resolveu comprar algo parecido para, então, partir em direção à Irlanda. "Me encantei com uma, mas todos meus amigos falavam para não comprar, pois tinha problemas como impostos atrasados e inspeção vencida. Fui teimoso e arrebatei. Arrumei a lataria, fiz cama, soldei um cofre, pus som, cortinas e comecei a planejar a trip."

Já na estrada, André encontra com amigos de Ilhabela em uma etapa do mundial de kitesurf em Tarifa, na Espanha. Um deles, Pimpolho, seguiu viagem com o amigo. Fizeram a costa do sul da Espanha e de Portugal e, desse ponto em diante, André continuo sozinho até Santiago de Compostela, onde foi se encontrar com Juancho, uma recomendação de amigos de Fuerteventura para dividir custos da viagem. Viajaram pelo norte da Espanha, surfaram em Biarritz, na França e, finalmente, cruzaram de navio até a Irlanda.

Já no novo destino e com o passaporte português em mãos, arranjar emprego foi menos complicado. "Consegui trabalho em um hotel quatro estrelas voltado para golfistas. Foi uma ótima experiência, pude evoluir bastante no inglês."

Depois de muitas ondas incrivelmente geladas, a chegada do outono convenceu André de que não seria uma boa ideia continuar por lá no inverno. "Resolvi passar o verão no Brasil, deixei meu carro na casa de uma amiga polonesa com tudo dentro: pranchas, violão, roupas..."

O plano era voltar a Europa, trabalhar e continuar sua viagem. Em 2007, André retornou à pousada Canto Bravo, na praia do Bonete, como gerente. "Mesmo tendo vivido e conhecido muitos lugares, o Bonete nunca saiu da minha cabeça."

A proximidade com a família e amigos e o novo emprego fez o surfista mudar seus planos. Decidiu ficar no Brasil e com uma passagem de volta à Europa já comprada, André voltou à Irlanda, onde vendeu suas coisas. Em seguida, resolveu matar as saudades das Ilhas Canárias.

Depois de tanto tempo longe do lugar que havia escolhido para abrigar sua barraca e sem manutenção, o governo havia removido as paredes e tudo o que havia sido erguido por André. "Foi um baque, mas bom por um lado. Eu tinha um vinculo muito forte com o lugar e, assim, pude me libertar deste apego e viver no lugar que escolhi."

Depois de quase um ano em Bonete, André se casou com uma surfista nativa, Sara, e passou a administrar a Pousada Canto Bravo. "Amo a vida que tenho neste lugar abençoado, tenho os meus planos fixos neste paraíso, mas quero buscar novas ondas sempre que puder."

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