Parte 1: Remando pela cultura caiçara
Foto: Eduardo Bernardino
Da natureza é retirada a caixeta, um tipo de madeira que nas mãos de Seu Dadico (ao fundo) vira em instantes um barco artesanal, que mantém viva a identidade caiçara

Parte 1
Remando pela cultura caiçara

Sexta, 25 Fevereiro 2011 Eduardo Bernardino Pedro Cattony | Do Caravana

Um braço do mar de cerca de 8 km que adentra ao continente com o brillho de um azul cintilante, belezas naturais, cultura caiçara... O Saco do Mamanguá apresenta tudo isso e muito mais

Partimos de São Paulo ainda de madrugada para chegar cedo ao nosso destino. A viagem foi tranquila e após algumas horas estávamos na praia de Paraty-Mirim, carregando os caiaques com as bagagens e mantimentos e nos preparando para uma travessia de poucas horas até o Saco do Mamanguá - um braço de mar de cerca de 8 km, que avança sobre o continente e apresenta o azul cintilante de suas águas contrastado com o verde das matas que cobrem seus enormes paredões.

O primeiro trecho, de Paraty-Mirim até a pousada na Praia Grande, tem sete quilômetros. Começamos a remar protegidos por nuvens e entretidos por uma tartaruga que descansava sobre uma pedra submersa. A calmaria do mar naquele instante nos desviava do desafio de remar para o encanto do espelho d'água que refletia o céu.

Por vezes, este reflexo tinha sua nitidez abalada por cardumes de paratis que encrespavam a água com saltos frenéticos sobre a superfície.

À medida que avançamos os ventos aumentaram, as nuvens ganharam um aspecto negro e carregado e o mar, agora agitado, nos impôs um ritmo mais forte. A chuva não demorou a cair. As nuvens, de tão carregadas, pareciam descer os paredões e, num espaço curto de tempo, o cenário perdia o contraste e tudo parecia se desfocar atrás de uma cortina úmida branca e cinza.

Chegamos à pousada molhados e otimistas com a recuperação do tempo firme e aberto que precedeu nossa chegada.

O dia seguinte começou com a promessa de tempo bom. As nuvens, já menos densas, pareciam ser arrastadas pelo vento e davam lugar ao azul ainda tímido do céu.

A mandioca e a caixeta

A cultura caiçara, desde o planejamento de nossa viagem, era um dos aspectos que queríamos explorar no Saco do Mamanguá. A ausência de eletricidade e de caminhos por terra que liguem a comunidade aos centros urbanos fez desta uma grande oportunidade de imersão na sabedoria de quem cresceu com o mar aos pés e a com a mata atlântica como lar.

De ascendência indígena, negra e européia, os caiçaras conservam conhecimentos tradicionais sobre os recursos naturais. As soluções estão todas ali no quintal de suas casas: a floresta.

Desde uma indisposição até a picada de uma cobra peçonhenta, tudo é resolvido com as lições acumuladas pelas gerações anteriores. “Pouca gente procura o médico na cidade. A maioria se trata por aqui mesmo”, contou um morador local.

Ainda pela manhã, com o tempo um pouco fechado, fomos a pé ao encontro de “Seu” Nilton em uma das muitas casas de farinha da comunidade. Com traços bem marcados pelo sol e fala simples, ele nos mostrou o processo que termina com a obtenção da farinha de mandioca.

O caiçara aponta com orgulho a roça feita no pé do morro e mostra outras tantas que já desapareceram para dar lugar à mata, que enriquece o solo e, novamente, lhe traz o sustento.

Com o mesmo orgulho, retira o pé de mandioca do chão e exibe as raízes ainda envoltas por terra. Esta é a base de um dos aspectos mais conhecidos de sua cultura: a culinária.

Na casa de farinha, Seu Nilton nos fala sobre a cautela de se espremer bem a mandioca moída: “O caldo é venenoso. Uma vez, o porco entrou e bebeu o líquido que estava na gamela e tombou para o lado”, conta.

O caiçara nos fala também, detalhadamente, de cada etapa do preparo da farinha, desde a colheita da mandioca até a obtenção do produto final, passando pela moagem e cozimento em grandes tachos de cobre.

Nas horas seguintes, após um café da manhã reforçado, o tempo já mais firme nos convenceu a apanhar os caiaques e remar três quilômetros até a Vila do Baixio, onde conhecemos o Seu Dico que, enquanto entalhava uma pequena canoa caiçara, nos contou sobre como aprendeu a manejar a caixeta de forma sustentável: “A gente corta uma e ela dá vários brotos. Aí, a gente aprendeu a cuidar dos brotos pra não acabar.”

O artesão também conta sobre as dificuldades de manter o artesanato vivo no cotidiano caiçara devido a baixa renda gerada por essa arte. As gerações mais novas resistem ao aprendizado das técnicas do artesanato e concentram suas forças na pesca comercial.

Ainda assim, o artesão, hoje com 53 anos, estufa o peito e diz que trabalha na profissão desde os 11 anos e já chegou a viver apenas de sua arte.

O envolvimento da comunidade do Saco do Mamanguá com o turismo e a participação dos visitantes em aulas sobre produção de farinha de mandioca, artesanato de caixeta e confecção de redes artesanais tem ajudado a preservar a identidade caiçara tão bem quanto divulgá-la de forma positiva.

Com a implementação do turismo de base comunitária todos ganharam: a comunidade, os visitantes e o meio ambiente, que passou a ser preservado e manejado para se manter interessante aos olhos curiosos de quem decide conhecer este pequeno paraíso.

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Comentários

  • Paulo Cardoso
    Paulo Cardoso
    25 Fevereiro 2011 at 19:10 |

    Sensacional a matéria! É realmente incrível o que os repórteres conseguem passar pro leitor tanto no texto como nas imagens e no vídeo. Parabéns a todos os envolvidos na produção. Vou indicar o portal, com certeza.

  • Guadalupe
    Guadalupe
    25 Fevereiro 2011 at 21:48 |

    Pegando carona com vocês eu tive a nítida impressão de ter estado lá, se essa era a idéia fluiu muito bem!
    Parabéns, imagens fantásticas, acredito que vocês traduziram muito bem o que é esse paraíso que deu muita vontade de conhecer... e remar também!
    Parabéns pela matéria!

  • Fernanda Tibério
    Fernanda Tibério
    27 Fevereiro 2011 at 13:05 |

    A intimidade com o lugar e as pessoas está perfeitamente transportada para a proximidade com o leitor.
    Adorei a matéria! Dá vontade de pular no azul do Saco do Mamanguá junto com vocês!
    Parabéns!

  • diego pinto
    diego pinto
    11 Março 2011 at 18:34 |

    parabens nos mostrou um novo lada ainda desconhecido para muitos. !!!!

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