Parte 3: Parnaioca, um paraíso
Foto: Pedro Cattony
Nas comunidades locais da Ilha, a solidariedade dita a relação entre os caiçaras que dividem o sustento diário com trocas de alimentos

Parte 3:
Parnaioca, um paraíso "esquecido" e a árdua luta caiçara

Quarta, 03 Agosto 2011 Pedro Cattony | Do Caravana

A região conta com poucos habitantes, que tentam fazer da área uma zona histórica cultural para manter as comunidades tradicionais da região e, junto com isso, preservar o modo de vida caiçara

Com a demolição do presídio, na década de 90, a Parnaioca, que já teve uma população de milhares, parece ter sido esquecida. A luta de poucos habitantes tenta fazer da área uma zona histórica cultural para manter as comunidades tradicionais da região e, junto com isso, preservar o modo de vida caiçara e estimular o imaginário dos muitos que ainda passarão por lá.

A travessia da Parnaioca até a praia do Aventureiro deve ser feita de barco, uma vez que não é permitido o acesso de turistas à reserva Biológica que abrange as praias de Sul e Leste.

Na praia do Aventureiro, outra comunidade tradicional e mais histórias sobre o presídio. "Tempos difíceis", relata Seu Vovô. Mas debaixo do rosto angustiado de quem contava uma história dura, os traços firmes e bem preservados de quem levou 76 anos de uma vida a base de peixes e riquezas da terra.

Com Seu Vovô, aprendi sobre a pesca artesanal, sobre como a comunidade divide os produtos do esforço individual em prol do coletivo. "Peguei muito peixe hoje, ele pegou muita banana verde, o vizinho tem mandioca boa... A gente divide!"

Encontrei surpresas para o paladar como o bacalhau caiçara, ou seja, peixe salgado e seco no sol.

Próxima parada: Praia Grande de Araçatiba. Na manhã em que deixei a comunidade do Aventureiro, consegui uma carona com o barco que leva as crianças até a escola no Provetá, uma vila caiçara bem maior que fica além da praia dos Meros.

No caminho, mais uma surpresa agradável: golfinhos transformavam a rotina de ir para a escola numa agradável lembrança de criança. Como fazem parte do dia a dia de quem vive na ilha, eu imaginava reações comuns a presença dessas criaturas encantadoras, mas me surpreendi com o êxtase que tomou conta dos estudantes.

Deixei-me carregar por aquelas sensações e tudo começou a se encaixar para formar uma lembrança que pretendo conservar. A maresia acumulava sal em meus lábios e a paisagem ganhava sabor. O sol das 7h, ainda brando, amenizava a brisa suave carregada pelo vento e, a paisagem, dava liga ao que parecia um sonho de quem só via carros e prédios no caminho para a escola.

No Provetá, reencontrei a eletricidade. Dai pra frente, os postes me guiavam em direção ao Abraão quando as trilhas se tornavam confusas. Três horas de caminhada e eu estava na Praia Grande de Araçatiba. Próxima a esta praia está a gruta do Acaiá, que em tupi-guarani significa sopro.

Trata-se de uma gruta com uma fenda que a liga ao mar. A medida que as ondas penetram por baixo, o ar se desloca com força em direção a abertura da gruta em terra.

Quando se entra nela, os 5 m que se desce de escada e a pouca altura do teto, cerca de 60 cm, despertam uma sensação claustrofóbica, mas está é silenciada pelo efeito da luz refletida no fundo do mar acendendo a fenda em tons de azul e verde brilhantes.

De volta ao continente

Na manhã seguinte, café reforçado, e voltei para trilha. Foram quase oito horas de caminhada até alcançar a Ponta do Bananal. Exausto com o cansaço acumulado dos dias anteriores, fui recompensado por tartarugas e peixes que apareceram próximos a um pier. Só quando respirei fundo e ergui a cabeça, me dei por conta de que, depois de tantos dias andando, eu estava novamente encarando o continente.

Resolvi curtir a praia e comemorar o percurso que se encerraria no dia seguinte com poucas horas de caminhada. Dez dias de muita trilha e o suor, que por vezes escorria e atingia os olhos, já não incomodava mais. Os ombros anestesiados pelo peso também já não eram um problema e, a cada passo, a expectativa de retornar a Vila do Abraão injetava ânimo nas passadas... Cada vez mais largas.

Freguesia de Santana, Saco do Céu e, finalmente, o aqueduto, que denunciava que faltavam poucos minutos para a Vila onde tudo começou. O sol daquela tarde revelava uma Vila diferente da que eu havia conhecido quando cheguei, mas a história abrigada por aquela paisagem continuava a mesma e, como na volta em torno da ilha, tinha, por fim, suas pontas conectadas.

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