Parte 3: Luz, câmera... ação!
Foto: Pedro Cattony
A mobilização dos barqueiros é importante na "caça" à onça que, quando encontrada, se torna um deleite para as câmeras fotográficas dos turistas

Parte 3:
Luz, câmera... ação!

Terça, 11 Janeiro 2011 Pedro Cattony | Do Caravana

Tuiuiús e tucanos cruzavam os céus sobre o barco aos pares em um voo discreto e silencioso. Ao contrário, as araras azuis se anunciavam e podiam ser vistas dezenas de metros antes de cruzarem por nosso caminho.

Cerca de 30 minutos depois, chegamos ao barranco onde a onça descansava. Apesar de nossa presença, ela parecia não se importar e se banhava com a língua como se fosse um mero gato doméstico. A doçura de seus gestos, aparentemente inocentes, se desfazia à medida que, por vezes, suas garras se projetavam à frente.

Havia algumas outras pessoas observando o animal e a empolgação era evidente. Todos pareciam extasiados e foi fácil descobrir o motivo. Entre gestos de quem tentava contar uma história e reproduzir seu impacto com movimentos de braços e mãos amplos e sutis, a voz do contador chegava até mim em um tom baixo e prudente usado para não afastar a onça.

Pouco antes de minha chegada, um grupo de ariranhas havia se aproximado do barranco em uma tentativa ingênua de buscar sombra e alivio contra o sol forte. Sem perceber a presença do felino, as ariranhas foram surpreendidas por um salto. Muita agitação na água entre o salto e o mergulho da onça, que, mesmo tendo a distração das ariranhas a seu favor, voltou à margem sem nada em suas presas.

As ariranhas não se acuaram e, ofendidas pela tentativa do predador, mostravam seus dentes e gritavam para onça como se a chamassem para um acerto de contas dentro d’água, onde possuem a vantagem. A onça sabia disso e, indiferente como um gato doméstico pode ser, as ignorou e voltou a lamber as patas.

Enquanto eu a fotografava, buscava seus olhos pela lente e, ao contrario do que se poderia pensar, fui eu quem se sentiu invadido. Suas pupilas se contraíam enquanto tentavam me avaliar. Nessa hora, senti um calafrio e tive respostas. O animal não se incomodava com nossa presença porque sabia que não éramos um oponente à altura.

É nessa hora que a educação do turista se faz necessária, é preciso saber respeitar os limites do território do animal. Interpretar os sinais enviados pode ser a diferença entre uma experiência incrível e um acidente.

Eu entendi os sinais, medimos forças através de minha lente e assumi meu papel de expectador. Passei horas observando o felino à distância e fui recompensado com uma travessia despretensiosa do rio. O amarelo de sua pelagem se fundia com os tons terra da água e, mais uma vez, seus olhos se destacavam e causavam calafrios em quem ousava fitá-los.

O espetáculo terminou com a mata abrigando o animal. Permanecemos lá por mais alguns instantes esperando que este retornasse a alguma clareira, mas em vão.

A mobilização de barqueiros é fundamental na busca pelo animal e os bons resultados crescentes nos tours de focagem têm dado novo fôlego ao ecoturismo da região.

No final da tarde, fui recebido no pequeno porto do Jofre e, ainda extasiado, fui questionado por pescadores e pantaneiros: “Viu a onça?!”

A minha resposta veio seguida de euforia e muitos sorrisos. Ali ficou claro o orgulho e o entendimento de quem encontrou na preservação uma forma de ser valorizado. Eu havia contemplado a riqueza deles!

Diferente das noites anteriores, com costelas de pacu e a carne tenra e suave do pintado, decidi experimentar o caldo de piranha. Antes de me acostumar com o sabor forte do peixe, me dei por conta de que estava no final de minha viagem. Na manhã seguinte, deixei o porto Jofre em direção a Poconé. Sem pressa, aproveitei cada oportunidade que tive de avistar mais animais pelo caminho. No final da tarde, parei em uma das muitas torres erguidas em fazendas nas proximidades da estrada para acompanhar o pôr do sol. Queria uma última imagem impressa em minhas lembranças: o vermelho intenso do sol sendo apaziguado pela enorme planície pantaneira.

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