Parte 2: Seja bem-vindo à
Foto: Pedro Cattony
O código penal implantado após a proclamação da república estabelecia pena de prisão com trabalho a ser cumprida em colônias penais localizadas em ilhas como a de Dois Rios

Parte 2:
Seja bem-vindo à "Alcatraz Brasileira"

Quarta, 03 Agosto 2011 Pedro Cattony | Do Caravana

Travessia rumo à praia da Parnaioca levou a reportagem do Caravana a mergulhar pelas histórias de uma das colônias penais mais temidas do país durante a ditadura: o presídio de Dois Rios

Ainda naquela tarde, na Vila do Abraão, comecei a me organizar para iniciar a volta em torno da Ilha Grande no sentido horário, o que colocou os trechos mais difíceis e de trilhas fechadas nos primeiros dias de caminhada. Foi uma decisão boa, uma vez que pouparia a pouca força que restaria para os trechos mais fáceis.

A trilha de cerca de 9 km até a praia de Lopes Mendes serviu como aviso para o peso extra que eu parecia estar carregando. A princípio, cuecas, alguns pares de meias e camisetas não pareciam configurar o “peso extra”, mas como não haviam supérfluos em minhas escolhas prévias, tive que reduzir pela metade tudo o que eu estava carregando.

Acabei com três sungas, três pares de meias, duas bermudas, uma calça para trilha, três camisetas e um agasalho. Acredite! Cada grama a menos fez a diferença no final de cada dia de caminhada!

Então, estava decidido! Lopes Mendes foi um desvio e um teste para o peso. No retorno para a Vila do Abraão, refiz minha mala e fui as compras... Comida pra trilha, claro!

A partir do dia seguinte, não haveria mais espaço para testes. Eu começaria a me afastar da Vila e só a encontraria novamente com a volta completa em torno da ilha.

A meta era chegar na praia da Parnaioca, à 15 km de distância. No caminho, conheci a vila de Dois Rios, hoje conhecida por ter abrigado uma das colônias penais mais temidas do país durante a ditadura: o presídio de Dois Rios ou a “Alcatraz brasileira”, criada em 1894.

O código penal implantado depois da proclamação da república estabelecia pena de prisão com trabalho a ser cumprida em colônias penais localizadas em ilhas marítimas. Daí por diante, a repressão contra a vadiagem adquiriu força no país.

No governo Vargas, as prisões políticas aumentaram e passaram a ser feitas sem julgamento e processos. Além dos condenados por vadiagem (bêbados, vagabundos e capoeiras), sentenciados de todos os tipos e prisioneiros políticos passaram a lotar a prisão. Com a chegada dos presos políticos, pouco a pouco, denúncias sobre maus tratos e condições de higiene começaram a circular sob a forma de relatos.

Durante anos, a riqueza paisagística e a grande diversidade biológica e cultural da Ilha foram subestimados e, atualmente, as histórias da Ilha permeiam os relatos de quem viveu anos de tensão e ameaças por parte dos detentos que conseguiam escapar do presídio.

As trilhas de hoje dão a volta em torno da Ilha, mas, no passado, também cruzavam seu centro ou, como é chamado pelos locais, a Bocaininha e seus sertões. Os presos as utilizavam para fugir das tropas que se acumulavam na Vila do Abraão e, em grande parte das vezes, terminavam em praias da face oceânica da Ilha como a Parnaioca, minha primeira parada.

Entre a Vila do Abraão e Dois Rios, as nuvens que baixavam sobre as montanhas me preocuparam, mas, ainda sim, o sol imperou pela maior parte do dia. O caminho para a Vila do presídio pode ser feito por uma antiga estrada que a ligava com o Abraão. Hoje, veículos motorizados não são permitidos na Ilha.

Os próximos quilômetros até a Parnaioca foram preenchidos por horas de tensão. A trilha, fechada pela mata em vários pontos, se afastava das encostas e penetrava em direção ao interior. A pouca luz que passava pelas grandes copas das árvores desviava minha atenção do verdadeiro horário e me fazia crer que o sol estava próximo de se por.

O alívio só retornava quando o mar podia ser ouvido novamente. Foram pouco mais de 4 horas para vencer esse trecho. Dentro da mata, macacos bugios me acompanhavam curiosos e, por vezes, com atitudes territoristas.

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