Parte 1: No território da onça
Foto: Pedro Cattony
Agressivas ariranhas duelam entre sí por peixes que durante a estação da seca ficam confinados em alguns braços de rios e pequenas poças

Parte 1:
No território da onça

Segunda, 10 Janeiro 2011 Pedro Cattony | Do Caravana

Em meio a tuiutis, ariranhas, capivaras, jacarés, tamanduás e outros milhares de espécies de animais, a reportagem do Caravana da Aventura se embrenhou por três dias na mata pantaneira atrás do maior prêmio aos olhos dos turistas: a onça pintada. E o esforço valeu a pena. Não encontramos o maior felino das Américas como ele nos brindou com prazerosos minutos de convivência pacífica

O Pantanal é uma terra de contrastes. No verão, o Rio Paraguai inunda as planícies e tudo se dissipa na calmaria das águas quase paradas do charco. No inverno, as águas recuam e a luta diária pela sobrevivência se expõe aos olhos curiosos de quem cruza a transpantaneira em direção ao Porto Jofre. Isso faz da estação seca a melhor época para se visitar a região.

A porta de entrada para a rodovia transpantaneira é a cidade de Poconé, a 104 km ao sul de Cuiabá. Para os que vão de carro e pretendem acampar, Poconé é a última chance que encontrarão para abastecer veículos e comprar mantimentos. O sinal para celulares também desaparece a medida que se viaja rumo ao porto.

A transpantaneira conta com uma grande estrutura de pousadas em seus 147 km de estradas de terra, mas os postes com energia elétrica não avançam além dos 65 km. Daí por diante, toda a energia é fornecida por geradores.

Durante a estação seca, os braços de alguns rios e pequenas poças confinam centenas de peixes. Um verdadeiro banquete para jacarés e diversas espécies de aves que chegam ao Pantanal para se reproduzir. A poeira da estrada se perde na explosão de vida que toma a ação em suas beiradas e a mente se deixa levar pelas cores fortes e vibrantes de aves como colhereiros, tucanos, papagaios e araras azuis.

Ao lado, jacarés e capivaras se amontoam nos remanescentes d’água e configuram uma relação que parece improvável, mas que se faz necessária em tempos de escassez. Mais à frente, cervos arrancam numa série de saltos ágeis e bem calculados ao menor sinal de perigo e somem nos tons dourados do capim queimado pelo sol.

Essas são as belezas óbvias do Pantanal. Mas são as nuances das relações delicadas de equilíbrio entre os animais que mantêm tudo o que há de mais óbvio coeso. E é aí que mora a verdadeira beleza do lugar, menos óbvia e mais importante!

Aprender a respeitar este equilíbrio tem sido parte da vida de pantaneiros que trocaram a lida com o gado pelo eco turismo. Os desafios são muitos em uma região tomada por fazendas, principalmente no que diz respeito às onças pintadas, o maior felino do continente americano.

Lendas pantaneiras

A timidez dos pantaneiros esconde a grande sabedoria que carregam, mas seus olhos brilham e o semblante áspero desaparece quando contam com orgulho sobre sua terra. As histórias sobre onças e seus feitos levam longe o imaginário de quem as escuta. Desde muito cedo, esses animais ganharam respeito e destaque na cultura pantaneira/ sertanista, a começar pelas lendas dos índios kaiapós. Segundo uma das lendas, os segredos do arco e flecha e do fogo foram roubados da onça pintada, que ficou apenas com o reflexo das chamas em seus olhos.

A onça também ganhou notoriedade pelas palavras de Guimarães Rosa, que narra a história de um mestiço de índia com branco e seu destino em “Meu tio, o Iauaretê”. A personagem, um agregado de fazendeiro, é enviado para caçar onças nos confins do sertão e, gradativamente, começa a rejeitar o civilizado e se reconhece como animal. Acaba virando onça e mata homens.

Pantaneiros contam exaltados sobre os duelos do felino com baguás (búfalos que se tornaram selvagens), jacarés e tamanduás de garras afiadas. Eu tive minha própria experiência com o animal e testemunhei a força que o elege como mito.

Ainda na transpantaneira, a paisagem parecia se tornar ainda mais selvagem a medida que nos aproximamos do quilômetro 100, no Campo do Jofre, mais conhecido como território das onças pintadas. Não é incomum encontrar com estes animais atravessando a pista ou, até mesmo, descansando sobre as pontes de madeira da rodovia durante a tarde.

Para os que planejam percorrê-la de bicicleta, é recomendado que tenham extrema atenção durante os horários de caça deste felino, ou seja, a partir do final da tarde e ainda cedo durante a manhã. Também não é recomendado o uso de casas abandonadas para paradas e, em hipótese alguma, para pernoite, uma vez que muitas delas são conhecidas por, em algum momento, terem servido de abrigo para onças.

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Comentários

  • Pedro Moura
    Pedro Moura
    11 Fevereiro 2011 at 18:01 |

    Excelente!

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