Parte 1: Descubra Salta, “la linda”
Foto: Eduardo Bernardino
Salta impressiona os turistas pela sua rica arquitetura, porém ruas desertas como acima são exceção, uma vez que os carros dominam as estreitas vias locais da cidade

Parte 1
Descubra Salta, "la linda"

Segunda, 28 Março 2011 Eduardo Bernardino Pedro Cattony | Do Caravana

Num roteiro cheio de surpresas, o Caravana se juntou à comunidade local, saboreou a culinária andina e provou até a polêmica folha de coca como 'remédio' contra os efeitos da temida altitude

Com tempo nublado e ameaçando chuva, chegamos à Salta, cidade localizada no norte da Argentina, conhecida também com “La linda”, que em português revela o lado pouco modesto do povo local, que a apelidou como: "A linda".

Salta, charmosa pela arquitetura de décadas passadas, sofre um pouco com suas ruas estreitas, com a falta de manutenção das construções e com a quantidade de carros, que são quase um assunto à parte sobre a região.

O caos toma conta do trânsito em Salta, o número excessivo de automóveis, táxis e lotações em situação irregular, somado ao mau estado de conservação das ruas, falta de sinalização e má conduta de muitos motoristas, acaba afugentando os turistas que pretendem transitar pelas ruas, deixando claro que para ser uma cidade turística não basta ter apenas belos lugares e boas operadoras, precisa de investimento em toda infraestrutura do local.

Ainda assim, Salta mantém a poesia argentina nos sons e nos aromas com um toque extra da rica cultura andina. Impossível passar por lá e escapar da tentação de alfajores artesanais, vinhos e, também, da culinária dos Andes com seus tamales e humitas, algo próximo do que chamamos de pamonha.

Em toda culinária andina, é fácil encontrar um ponto de convergência: o choclo, uma variedade de milho. Um legado dos grandes impérios que se estenderam pela América Latina como Incas, Astecas e Maias, cujo o milho era considerado um alimento sagrado.

Hoje, mais popular do que na época destes grandes impérios, os pratos à base de milho e as empanadas e todas suas variações de recheios podem ser uma opção mais econômica para refeições como almoço e jantar.

A proximidade com os Andes deu à Salta, além de uma população com traços indígenas, grande simbiose entre elementos do catolicismo e de crenças pagãs de origem Inca como a veneração à Mãe Terra (Pachamama) e ao Deus Sol (Inti).

Outro fator cultural de grande importância no modo de vida da população local e dos Andes em geral é o consumo da folha de coca, que já foi exaltada pela cultura Inca.

A folha é remédio contra os males da altitude (apesar de não ter parecido funcionar muito bem conosco) e jejuns prolongados. Uma lenda diz que o fundador do império Inca, Manco Cápac, filho do sol, desceu dos céus e se dirigiu ao lago Titicaca para ensinar aos homens como cultivar suas terras e os ofereceu uma planta, cujas folhas, quando mascadas, ajudavam a recuperar as forças. E falando em força, não se acomode com a primeira opção de hospedagem que encontrar.

Há grande tradição de albergues na Argentina, o que os torna muito acessíveis. As opções são tantas que acabam desencorajando buscas mais detalhadas. O centro de atendimento ao turista pode lhe dar uma grande lista com divisões por faixa de preço, o que ajuda muito na hora de encontrar um bom lugar pra ficar.

Cuidado! Não se deixe enganar pelo cansaço da viagem ou pela lembrança de que existe comida de verdade fora de um avião ou ônibus. Seja criterioso em sua busca e não corra o risco de, como estes humildes viajantes, encontrar o atendente de seu albergue em uma cueca vermelha dançando Lady Gaga no corredor... Entre você e a única porta de saída. Finalmente, as placas com os dizeres "Saída de emergência" fizeram sentido!

Chá de coca x altitude

Sustos à parte, nosso primeiro dia também foi dedicado a um breve passeio pela cidade em busca do Mercado Artesanal de Salta, uma construção de meados do século XVIII que, mesmo tendo sofrido modificações até o final do século XIX, demonstra muito charme e opções de compra de artesanato.

Logo bateu a fome e fomos procurar as famosas empanadas. Enquanto comíamos, discutimos sobre nossas atividades no norte argentino. Entre elas, o famoso "Trem das Nuvens", as grandes salinas ao norte e um prometido rafting pelo rio Juramento e seus três graus de dificuldade, uma combinação perfeita entre segurança e aventura para os principiantes neste esporte.

Na manhã seguinte, deixamos Salta em um carro rumo às salinas, já nas proximidades com as fronteiras do Chile e da Bolívia. A jornada de um dia inteiro teve, em seu início, trechos comuns aos percorridos pelo trem das nuvens.

Tivemos a sorte de chegar em uma época em que os cactos florescem. As flores, brancas e efêmeras, salpicavam montanhas da cordilheira e quebravam a aridez da paisagem em conjunto com uma cobertura vegetal esparsa e de um verde-amarelado tímido que cercava cactos com centenas de anos acusados por suas estaturas imponentes.

A estrada sinuosa corta as montanhas e desafia as alturas. Já próximos de 3000 metros de altitude, os primeiros males começaram a aparecer. Cansaço, tonteira e uma leve dor de cabeça podem compor este quadro.

Em San Antonio de los Cobres, o ponto final do trem, que transportava o minério que deu nome à cidade, fizemos uma parada para comer e recompor as forças com a ajuda de alguns goles de chá de coca antes de seguir viagem de carro rumo às salinas.

Um almoço típico com sopa de milho, batata e um delicioso bife à milanesa de carne de lhama deram um jeito na nossa fome. A ingestão de açúcar (um grande alfajor) foi boa para diminuir o mal-estar causado pelo ar rarefeito.

Descansados e sem grandes esforços, parecíamos bem. Até a primeira corridinha de uns 70 metros pra conseguir uma foto... Aí o fôlego parecia ter nos abandonado!

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Comentários

  • Guadalupe
    Guadalupe
    09 Abril 2011 at 10:06 |

    Esse texto já deu mil vontade de ir... muito 10!

  • Antonio Pedro
    Antonio Pedro
    13 Abril 2011 at 14:27 |

    Bela reportagem, gostária de vêr mais

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