Parte 1: Rio Negro: Diário de bordo
Foto: Pedro Cattony
A Jacaré-açu foi a embarcação que transportou a reportagem do Caravana durante a expedição pelas belezas naturais da região do Rio Negro

Parte 1:
Rio Negro: Diário de bordo

Domingo, 24 Abril 2011 Pedro Cattony | Do Caravana

Caravana embarcou numa aventura de cinco dias pela região do Rio Negro, na Amazônia, revelando sua fauna, flora e muito da cultura e costumes indígenas ainda vivos na região

A Amazônia é lar de grandes hipérboles, mitos e, também, verdades. Não sabia muito o que esperar da floresta e dos rios que a cortam. De cima, ainda no avião, os caminhos d'água me faziam pensar em veias abertas de um enorme organismo verde.

Em terra, as poucas estradas, como a transamazônica, que tentam ligar o Amazonas à outras regiões são um lembrete do fracasso dos governos militares e, também, do descaso de governos mais recentes.

Hoje, Manaus e Novo Airão são as maiores cidades nos arredores do Rio Negro. Asfalto e até uma enorme ponte que cruza o gigante com águas cor de coca-cola prometem ligá-las e levar desenvolvimento aos cidadãos do Amazonas. Até que me mostrem o contrário, uma construção que, a princípio, liga uma região de olarias à cidade de Manaus me parece uma agressão à beleza e a vida do lugar.

Já no cais de onde partiríamos de barco rio a cima por cinco dias, tive a primeira visão da embarcação: o Jacaré-açu, nome dado em homenagem a um dos gigantes amazônicos.

As cores da madeira e os acabamentos de palha com formas geométricas inspiradas nas pinturas indígenas eram realçados pela tinta verde usada no acabamento do chão e das laterais. O barco, com capacidade para até 16 pessoas, era coordenado por uma tripulação de seis tripulantes entre cozinheiros, arrumadeiras e, claro, pilotos.

A primeira grande surpresa da viagem foi não precisar de repelentes à bordo. A grande carga de ácidos orgânicos da vegetação em decomposição dá a coloração escura das águas e o ph relativamente baixo evita a proliferação de mosquitos.O mesmo não é verdade quando descemos e nos aproximamos da floresta para fazer trilhas.

No caminho, grandes nuvens parecem estáticas sobre a floresta e aumentavam a sensação de que subíamos o rio devagar. Quase como regra, os fins de tarde eram marcados por pancadas torrenciais de chuva e por um pôr do sol fantástico feito de tons que fugiam do tradicional vermelho e laranja e se aproximavam do rosa. O rio, como se preparasse uma armadilha para os olhos, refletia tudo e tudo ganhava proporções que fugiam à compreensão.

Campos de arroz selvagem

Na primeira noite, chegamos a Anavilhanas, o maior arquipélago de água doce do planeta, e fomos recebidos pela lua já cheia e alta disputando a cena com estrelas que apareciam entre nuvens, relampejos e raios que cruzavam o horizonte e calavam a selva com seus estrondos.

Descemos em uma pequena embarcação, uma voadeira, e navegamos entre campos de arroz selvagem. A névoa que subia da lâmina d'água e o silêncio enchiam os pulmões e a consciência com um sentimento quase palpável de paz.

Onde a vida é um grande jogo entre presa e predador, os animais nunca se denunciam. Mas a presença de peixes-boi era evidenciada por touceiras de arroz selvagem cortados pela base que boiavam próximo ao barco. Patos selvagens pareciam segurar o fôlego com nossa aproximação e tentavam nadar sem deixar sinais de turbulência na água.

Com a luz de lanternas, os olhos de jacarés brilhavam na escuridão e entregavam suas posições. Imediatamente, os mesmos submergiam e o eco do descontentamento em ser descoberto reverberava na noite. Com a mesma técnica, alguns olhos brilhavam sobre as árvores, mas, desta vez, eram serpentes.

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Comentários

  • Luis Henrique
    Luis Henrique
    27 Abril 2011 at 13:23 |

    Belíssimas fotos. Belíssimo texto! Parabéns!

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