Parte 2: Da paz do manguezal ao topo do Pão-de-Açúcar
Foto: Pedro Cattony
A reportagem do Caravana remou pelas águas do manguezal na busca da contemplação do Saco do Mamanguá, que só foi alcançada com a subida ao Morro do Pão-de-Açúcar

Parte 2
Da paz do manguezal ao topo do Pão-de-Açúcar

Sexta, 25 Fevereiro 2011 Eduardo Bernardino Pedro Cattony | Do Caravana

Após a conversa com o Seu Dico estávamos ainda mais instigados a conhecer o mangue que cresce no fundo do Saco, de onde vem a matéria prima principal para o artesanato da região: a caixeta, uma madeira muito leve e macia que pode ser esculpida facilmente para dar forma a canoas, barcos, peixes, tartarugas.

Até o Manguezal do Rio Grande foram mais quatro quilômetros de remadas. Durante o percurso, é fácil notar a mudança das cores da água, que passa de um azul-esverdeado para tons marrons de um rio de mata atlântica que reflete as raízes aéreas das árvores do manguezal e seus habitantes.

De um lado, caranguejos são observados atentamente por aves como socós e Martins Pescadores e, do outro, pescadores lançam suas redes artesanais nas águas rasas do Mamanguá, que possui sua maior profundidade a cerca de 10 m da superfície.

No caminho pela área do manguezal é possível sentir uma paz incrível, os únicos sons do lugar eram o do remo empurrando a água, o da vocalização inigualável dos guaxos em época de reprodução e o do vento que balançava as árvores.

Fomos em silêncio, contemplando a beleza do lugar, e paramos à margem do rio para caminhar pela pequena trilha que nos guiou até uma cachoeira, em meio à mata preservada, onde voltamos à infância.

No local há um tobogã natural por onde se escorrega em direção a um banho refrescante em águas cristalinas. Depois das brincadeiras, e feitas as fotos, relaxamos e contemplamos o local deitados sobre a rocha que forma o escorregador, comemos e renovamos nossas energias para remar os sete quilômetros do retorno até a pousada.

No terceiro dia, acordamos com o sol brilhando e o céu azul. Tomamos o nosso sagrado café da manhã e partimos animados em nossos caiaques até a Vila do Cruzeiro.

Visitante ilustre

Era pouco mais de um quilômetro remando, mas neste último dia de viagem os remos pareciam mais pesados. O alivio veio com uma pausa para socorrer um visitante ilustre: um pinguim fora de rumo e faminto. Foram 20 minutos preciosos para restaurar as forças que seriam exigidas para a subida até o pico do Morro do Pão-de-Açúcar, de onde se tem uma vista panorâmica do Saco do Mamanguá.

Deixamos nossos caiaques na praia, pegamos nossas câmeras e nos embrenhamos na mata atlântica para iniciar a subida. A trilha é bem marcada, porém com alguns trechos onde a mata já estava se fechando e outros escorregadios por causa do tempo fechado dos dias anteriores. A única coisa que não mudava era a inclinação, não há trechos planos ou de descida, sobe-se o tempo todo.

Fazer o percurso carregando o equipamento foi um pouco cansativo, porém rápido (1h30) e ao chegar ao topo o que se vê vale cada gota de suor derramada pelo caminho. Lá de cima pode-se contemplar o Saco do Mamanguá, à esquerda avista-se algumas pequenas ilhas, e o “fundo do saco” – onde está a entrada para o manguezal; à direita pode-se ver Paraty, Angra dos Reis e várias ilhas da Baia de Ilha grande.

Já no horizonte, a linha que separa o mar e o céu é quase imperceptível. As águas calmas do Saco do Mamanguá, lá de cima, ficam com um tom ainda mais forte do azul-esverdeado cintilante que nos chamava atenção desde as primeiras remadas da viagem e a sombra que as nuvens fazem na água, criando outros tons de azul, torna a imagem ainda mais incrível.

No alto do morro o que menos fizemos foi conversar, o local nos leva à contemplação total da natureza, escutando as aves, sentindo o vento refrescante, percebendo os novos aromas. São tantos estímulos que muitas vezes dava vontade de fechar os olhos, por mais exuberante que seja a vista do local, e usar outros sentidos para se inserir na paisagem.

A descida, como não poderia deixar de ser, foi cheia de comentários sobre tudo que vimos e sentimos, e de promessas acolhedoras: praia, céu aberto, sol e um belo almoço com peixe preparado à moda caiçara e muitas fatias de lula empanada.

Satisfeitos com nosso último banquete, voltamos à água para remar os últimos sete quilômetros entre ondas que vinham do fundo do Saco em direção ao mar aberto. Cada remada passou a ser planejada para aproveitar o embalo das ondas e poupar os braços.

Na volta, o tempo aberto revelou pequenas praias entre costões rochosos cobertos por bromélias. A paisagem e o surfe improvisado fizeram o tempo passar rápido e, sem perceber, chegamos à praia de Paraty-Mirim com o sol ainda alto e com um enorme sentimento de satisfação por tudo que aprendemos nesses três dias imersos na beleza do Saco do Mamanguá e da cultura caiçara.

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Comentários

  • Thiara
    Thiara
    25 Fevereiro 2011 at 22:16 |

    Que viagem! Só de ler eu já me deliciei, imagine tudo isso ao vivo (à cores, ao ar, ao verde e ao tudo o mais...).

  • Vanessa Machado
    Vanessa Machado
    02 Março 2011 at 15:03 |

    Os detalhes, a originalidade e o toque pessoal no texto fizeram toda a diferença, prendendo a atenção do leitor, sem falar nas belíssimas imagens e no vídeo.
    É encantador a calma e a beleza do lugar.
    Ótima matéria!

  • Luiz Woiski
    Luiz Woiski
    15 Março 2011 at 14:26 |

    Realmente, só a leitura quase permite sentir os aromas, a brisa e ouvir o marulhar e o farfalhar. Praticamente fui transportado para este lugar paradisíaco.
    Parabéns a todos e que venham mais matérias assim.

  • Aroejari
    Aroejari
    17 Março 2011 at 11:30 |

    Quem aprecia uma boa aventura por esses "Brasis" afora ou que se contenta em conhecer melhor as lindíssimas paragens do nosso país (e de outros também) vai gostar muito deste site.

    Aliada à divulgação de lugares, costumes e práticas eco-esportivas é uma via de conscientização para a necessidade de proteção e manutenção ambiental da terra que nos acolhe de maneira tão generosa.

    As imagens são belíssimas. Dá até "água na boca".

    Acessem o site, registrem-se, deixem seus comentários e boas aventuras para todos.

  • Aroejari
    Aroejari
    17 Março 2011 at 11:34 |

    Não há como não se encantar com as maravilhosas imagens e descrições.
    A diversidades deve agradar a todos os amantes de aventuras de todos os naipes.
    Parabéns pela iniciativa!

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